sexta-feira, 3 de abril de 2020

CÉREBRO EM TEMPOS DE QUARENTENA - ELVIRA SOUZA LIMA

Elvira Souza Lima

Como fica o cérebro nesta situação da quarentena do coronavírus?

O primeiro ponto a considerar, muito importante, é que a pandemia provocou uma ruptura. Muito rapidamente o contexto de vida, interações, rotina e expectativas do futuro imediato foram alterados bruscamente por uma situação nova e desconhecida para a qual a nossa memória não oferece acervos para responder.

Nós compreendemos as coisas e tomamos decisões com a participação de nossas memórias e de nossas emoções. A dificuldade no momento atual, com a pandemia, é que nunca passamos por algo semelhante. As rotinas que regulam nossa vida (família, trabalho, lazer, escola), as prioridades que estabelecemos são apoiadas no script/roteiro do nosso dia a dia e foram, repentinamente, solapadas  e terão que ser constituídas em outros termos.

No cérebro acontece uma descontinuidade química e surge a necessidade de estabelecer outras redes neuronais que deem sustentação à ação.

A reorganização no funcionamento cerebral não é instantânea, não depende somente da vontade ou deliberação. Demanda tempo.

Nós não mudamos de um momento para outro, é sempre um processo de adaptação e modificação, com avanços e retrocessos, processo este que vai definindo o percurso para formar comportamentos necessários para reagir a uma situação nova.

Um aspecto importante é que, no cérebro, haverá uma mobilização do sistema emocional de tal forma que muitas emoções emergirão. Medo é uma delas: medo do novo, medo de ser infectado, medo de que pessoas queridas o sejam e não resistam. Incerteza é outra consequência: não temos indicadores de evolução e possível término desta nova situação, pois não se sabe muito sobre o vírus e sobre as consequências. Incerteza gera insegurança. No cérebro, estes sentimentos acontecem com químicas que são liberadas em situação de estresse e que afetam bastante o estado de espírito e o humor. Então é um momento que precisamos, com certeza, buscar  um equilíbrio com a liberação de químicas que concorrem para o bem estar.

Como fazer para equilibrar ?  Algumas providências simples ajudam. Vejamos:

O cérebro precisa de pausas. Isto significa que precisa de sono, então uma das vertentes principais deste novo momento em que estamos todos imersos é garantir o sono, preservando os olhos da luz das telas de celular  e computador pelo menos uma hora antes de dormir.

O cérebro precisa de pequenos períodos de repouso, 10 a 15 minutos duas a quatro vezes por dia, ao menos.

O cérebro precisa de oxigênio, então práticas de respiração lenta e profunda contribuem bastante, assim como meditação e yoga. Exercícios físicos, que podem ser acompanhados por música, são igualmente importantes, por liberarem químicas que produzem bem estar.

O cérebro precisa ser “alimentado” pela vivência e práticas culturais que promovem a liberação de químicas positivas, ou seja, aquelas que nos fazem sentir bem.

Nesta situação de ruptura, em que há uma demanda do pensamento crítico e da criatividade para ajudar nosso pensamento, podemos e devemos recorrer às artes.

Das formas de arte, a música é a mais pesquisada pela neurociência. Temos um cérebro musical, ou seja, um cérebro que responde geneticamente à música e por ela é transformado. Todos cantamos, sem precisar estudar música, tanto a escuta como a produção de melodia com nossa voz é uma  característica da espécie, que se manifesta muito cedo no bebê e permanece em todos os períodos de desenvolvimento. A música atua diretamente no sistema emocional, promove o contágio entre as pessoas, sendo assim, também, um fator importante nas interações interpessoais na situação de quarentena.

Ouvir música, assistir a espetáculos musicais na internet, cantar, tocar um instrumento caso se tenha estudado música, dançar (que integra música ao movimento) devem integrar a rotina diária.

Outra atividade das artes cujo impacto no cérebro já tem sido pesquisado é a literatura. São inúmeros os benefícios da leitura de obras de qualidade, mesmo que poucas páginas por dia. A poesia tem um efeito positivo no funcionamento do cérebro, muito além do que livros de autoajuda.

Então este é um momento oportuno para trazer a literatura para o cotidiano, tanto a leitura feita individualmente, como em atividades coletivas em casa. Também podemos criar grupos online voltados para leitura e conversas sobre obras literárias.

É uma ruptura, estamos vivendo uma ruptura, que, dialeticamente,  constitui uma possibilidade de criação de estratégias de humanização. E isto fazemos, também, com diálogos.



quinta-feira, 2 de abril de 2020

Elvira Souza Lima - Pandemic and the Brain

Elvira Souza Lima , PhD

How does the brain respond to the present quarantine situation due to the corona virus pandemic?
The first point to consider, and this is very important, is that the pandemic has generated an experience of rupture in daily life. This happened very fast. A new and unprecedented situation altered everyday contexts, normal interactions and common expectations for the immediate future. In this new situation we can´t rely on our memory to provide initial guidance based on accumulated past experiences.

We understand things and we make decisions with the help of our memories and our emotions. The difficulty now, with the global pandemic, is our lack of similar experiences to rely on. The routines that regulate our lives (family, work, leisure, education), the priorities we establish, are all based on our daily scripts, and that has been undermined and will have to be reconstructed in different ways.
In this situation, discontinuity in chemical processes occurs in the brain and with it comes the pressing need to build new neuronal networks to support new modes of action.

However, the reorganization of brain functioning is not immediate; it does not depend solely on will and deliberation. It requires time.

We can´t change our ways instantaneously: change is a process of adaptation and modification of behavior with different and related phases of progress and regression, and this process establishes a path that will help form new behaviors in order to confront a new situation.

An important aspect of such process is that our emotional system will be intensely involved in it, and different types of emotions will surface, Emotions such as fear: fear of the new situation, fear of being infected, fear for our loved ones. The distress of uncertainty in this occasion is another emotional affliction: at this time, we don´t have sufficient knowledge to understand how things will evolve and what will be the results when this situation comes to an end. Uncertainty creates insecurity.  In situations of stress chemical processes in the brain occur that include or generate substances that affect our emotional stability and our states of mind. At this point, we need to search for balance and to counter these effects with the help of other processes and their related chemical substances in our brain that result in experiences and feelings of well-being.

What can we do to balance the mind? Some simple steps can help.
Namely:

The brain needs pause, it needs to rest. That means, it needs sleep and therefore in our present situation we must guarantee a good night of sleep by protecting our eyes from the bright lights of screens, from portable phones and computers, starting at least one hour before going to bed.

The brain needs short periods of rest, 10 to 15 minutes, from two to four times a day.

The brain needs oxygen and therefore methods and techniques of slow and deep breathing are extremely useful to provide and regulate oxygen for the brain.

The brain needs to be “fed” by cultural practices and experiences that promote the circulation of positive chemicals, that is, those related to our feelings of well-being and good spirits.

Contexts of rupture demand critical thinking and creativity: to help our thinking we can and must count on the arts.

Neuroscience has produced a lot of research on music, more than on other art forms presently. We have a musical brain, that is, a brain that is genetically prepared or structured to respond to music and can in fact be transformed by music. We all are capable of singing spontaneously, that is, without having to take lessons on music, listening to or singing a melody is a characteristic of our species that is presented very early by babies. Music affects directly our emotional system, it produces emotional relationships and emotional contagion, that is, closely shared emotional experiences among people and therefore can be an important element in personal interactions in a situation of quarantine.
To listen to music, to watch musical presentations, shows and concerts on the internet, to sing, to play an instrument if you are able to, to dance (an art form that combines music and movement) are activities that must be part of the daily routine.

Literature is another art form whose impact on the brain has been investigated by neuroscience. There are important benefits related to the activity of reading quality works of literature. Poetry has a positive effect in the brain that goes deeper and way beyond anything that readers might or do expect from self-help books.

Therefore, this is a good opportunity to bring literature into daily life: reading at home individually or jointly. Also creating on line reading and discussion groups on literary works.

We are living a period of rupture that as such, dialectically, provides the opportunity to develop new strategies for humanizing our lives, and that can be done by fostering dialogue among all of us.

April 1st, 2020
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Elvira Souza Lima , PhD
Neuroscience – Psychology – Education

souzalima.elvira@gmail.com

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Da Invisibilidade na Sala de Aula ao Sucesso na Escrita e na Leitura - Elvira Souza Lima





Da Invisibilidade na Sala de Aula ao 
Sucesso na Leitura e na Escrita

A proposta deste livro é apresentar e refletir sobre a situação da população mais atingida pelo chamado “fracasso escolar” e questionar algumas das crenças correntes sobre a inteligência e capacidade para aprender destes alunos.

Não  há  dúvidas  que temos, no Brasil, situações complexas e desafiadoras na educação básica. De um lado, temos o fato de uma quantidade importante de alunos que não chegam a dominar a escrita. Por outro lado, temos o grande avanço das ciências do cérebro sobre como este se organiza para ler e escrever. Já foi demonstrado que a aprendizagem da leitura e da escrita são culturais, ou seja, não há um centro da escrita geneticamente determinado como há para a fala. A neurociência nos possibilita pensar que todos podem aprender a ler e a escrever.

Há cerca de 40 anos presto consultoria para redes de ensino, organizações sociais e edu- cadores em todo o país. Em quase todos os municípios, meu trabalho envolveu interagir diretamente com as crianças que não estavam aprendendo a ler e a escrever. Elas eram indicadas pelos educadores de cada escola e eram, em sua maioria, crianças negras. Em sala de aula, as meninas tendiam a ficarem retraídas e caladas, enquanto que os meninos, em sua maioria, apresentavam reação visível à rejeição e ao fracasso.

Todavia, sempre que intervenções pedagógicas culturalmente  significativas eram feitas, as meninas respondiam muito fortemente de forma positiva. Decidi, então, centrar este livro nas meninas negras. Como pude constatar ao longo destes anos de pesquisas e estudos etnográficos, ao abordar o tema das possibilidades de aprendizagem destas meninas com educadores, a situação de fracasso escolar desaparecia.  Uma vez que se modifique o conceito de “não capazes de aprender” e se introduza uma pedagogia culturalmente relevante, que inclui a história, a literatura e a cultura da população negra, temos a possibilidade concreta que todas aprendam e se desenvolvam.

Tais fatos evidenciados no Brasil estão na linha do que vivenciei nos muito anos vividos nos Estados Unidos com a inclusão de população negra infantil e juvenil nas escolas públicas. Pude constatar na prática como o racismo mina a autoestima e confiança dos alunos e como uma mudança no contexto pode alterar profundamente a crença em si mesmos. Pude testemunhar a mesma coisa no D.C. Family Literacy, programa desenvolvido nas prisões em Washington D.C. Este programa tinha  como objetivo ampliar a experiência dos presos e presas com a escrita, incluindo formá-los contadores de história para receber seus filhos no horário das visitas, utilizando a literatura, autores negros e a cultura negra. De comum a população tinha o fato de terem sido todos, sem exceção, excluídos da escola, quer por expulsão e evasão, quer por múltiplas retenções, sempre considerados como incapazes de aprender.  

Encarregada da avaliação continuada do Programa puder atestar o impacto que este causou, principalmente pela valorização da cultura, da história e da literatura negras. A mudança de percepção de si mesmo foi apontada por todos participantes como o estímulo para voltar a estudar (nos Estados Unidos é possível prosseguir nos estudos enquanto encarcerados).

Tendo acompanhado as famílias em suas comunidades e o desempenho escolar dos filhos, pude constatar a mudança positiva nas crianças e seu crescente sucesso escolar, à medida que o programa avançava. São todas histórias de sucesso e merecem ser divulgadas.

O livro tem como objetivo demonstrar a capacidade de aprender, respeitadas a diversidade e a natureza cultural do desenvolvimento humano.

Elvira Souza Lima



Nossa iniciativa é a realização de uma edição de 2000 exemplares para serem distribuídos em escolas, grupos e organizações sociais que, como sabemos, tem acesso limitado ou nenhum acesso à internet. Nestes espaços serão doados exemplares suficientes para permitir a leitura e o debate entre pais, professores e integrantes do grupo em geral.  

Estes livros serão oferecidos e socializados para leitura e estudo nos seguintes espaços:

Educação do Campo, nacional
Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias nas regiões NO, NE, S, SE
MTST nos estados de SP, RJ, CE e no DF
escolas públicas de MG, RJ e SP
escolas públicas situadas na região do Vale do Aço, MG
escolas públicas situadas na Zona da Mata, MG
escolas situadas nas zonas periféricas e comunidades da cidade do Rio de Janeiro, RJ
comunidade da maré, RJ
UNAS União dos Moradores de Heliópolis, SP
Comunidade de Paraisópolis, SP
MSTC  (Movimento Sem Teto do Centro de São Paulo), SP
MST  Escola Florestan Fernandes e assentamentos,  SP
Geledés,  SP
Fundação Cultural Palmares

Elvira Souza Lima tem doutorado pela Sor-bonne, França e pós-doutorado pela Stanford University, nos Estados Unidos. Com formação multidisciplinar em neurociência, antropologia, psicologia, linguística e mú- sica, desenvolveu  uma abordagem teórica inovadora que integra as dimensões bioló- gica e cultural do desenvolvimento humano que pode ser aplicada à  área de educação, em especial à aprendizagem da escrita.


PDF AQUI


COMO CONTRIBUIR 

R$ 270
Doação de 40 livros para escolas e instituições socioeducativas + o nome do contribuinte nos agradecimentos + 1 livro para o contribuinte

R$ 150
Doação de 20 livros para escolas e instituições socioeducativas + o nome do contribuinte nos agradecimentos

INSTRUÇÕES 

Gabriel Souza da Silva Lima
314.263.198-43
Bradesco
Ag: 007915
Cc: 0000000029073-4


Enviar comprovante pelo Instagram, Whatsapp ou e-mail :

@coisas.international 

(fr) +33 6 32 10 03 03 
(bra) +55 11 98168-5397 
(ch)  +41 78 309 48 68

gbrlima@gmail.com